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Jornal das Vozes Livres de Brasília
HOME   Brasília - DF 28/10/2007

HERMANOS ÀS URNAS
etirar conclusões das eleições argentinas, deste domingo(28) e que devem escolher já em primeiro turno a esposa do atual presidente, Cristina Kirchner, não é tarefa fácil. Por um lado, a força de Kirchner nas sondagens de intenção de votos sugere que a popularidade da gestão atual é forte. Por outro, o atual patamar de aprovação, em torno dos 45%, não é nem de perto o que já foi anos atrás, cerca de 80%, quando Nestor conseguiu se firmar como o primeiro presidente pós-crise mais afastado dos desgastados postulados neoliberais, principalmente quando esbravejava contra o Fundo Monetário Internacional. Um pedaço da popularidade foi carcomido pela inflação, que supera os 20%, a despeito do que dizem os manipulados índices oficiais do governo. Os candidatos mais competitivos, Elisa Carrió e o ex-ministro Lavagna, representam em maior ou menor medida o retorno à agressividade privatizante e de ajuste fiscal do passado. A candidatura mais à esquerda nem sonha com os modestos 6%, por exemplo, alcançados por aqui pela socialista Heloísa Helena. Em parte, isso se deve às próprias fraquezas da esquerda argentina, incapaz de construir uma maior unidade ou mesmo de apresentar propostas competitivas. Mas a família Kirchner também têm seu mérito nisso. A proliferação de programas





de assistência social se assemelha ao caso brasileiro, mas os argentinos ainda apresentam o adicional calote branco nos detentores dos títulos da dívida pública argentina, que atualmente não recebem juros, apenas a falsificada inflação oficial. Ora, mas é o

companheiro Hugo Chavez, grande financiador da aventura de Kirchner, que atualmente compra esses papéis. Convenhamos que não é exatamente o capital financeiro argentino que está chorando as perdas. E nem redistribuição de renda é o nome certo a ser dado ao processo argentino, tampouco ao brasileiro. Por enquanto, os recursos do petróleo, cujo preço do barril bate recordes no mercado internacional a cada semana, são vastos. Tal como Lula, a virtual presidente Cristina se encontra regularmente com grandes empresários para trocar figurinhas. A falta de enfrentamento com grupos dominantes, ao mesmo tempo em que se expandem benefícios pontuais para os dominados, delineia os contornos de “conciliação” de ambos os governos. O tripé clássico do populismo latino-americano, fundamentado na heterogeneidade das elites, liderança carismática e falta de consciência de classe, parece ressurgir, transformado, é verdade, em pleno século XXI. Mas em ambos os países o modelo dá sinais de desgaste. Como Vargas e Perón no passado descobriram, o delicado equilíbrio que ele pressupõe não se sustenta no longo prazo.

*Estudante de Ciência Política na UnB e de Jornalismo no UniCeub.

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