Silas Rondeau


Ousadia do esquema criminoso da construtora Gautama chegou ao gabinete do presidente Lula e avançou sobre obras e verbas gordas do PAC, como o projeto de transposição do Rio São Francisco.
CORRUPÇÃO SEM LIMITES
Governo e Congresso estão apreensivos e resistentes à criação de CPI sobre a Operação Navalha da Polícia Federal, reveladora do escândalo da construtora Gautama, um roubo de mais de R$ 170 milhões dos cofres públicos. Governistas e oposicionistas temem o avanço das investigações. Consideram que a navalha pode degolar muita gente importante, além do ministro das Minas e Energia, Silas Rondeau,(foto), que rodou essa semana. Diante do alarme sobre uma lista de mais de 100 políticos e executivos do Governo agraciados, de alguma forma, pela Gautama, o clima é de pânico em palácios da Praça dos Três Poderes e gabinetes da Esplanada.

Quanto mais avançam as investigações da Polícia Federal, mais se avolumam os recursos públicos movimentados pela Gautama, os desvios realizados e as propinas comprometedoras. Esquema criminoso chefiado por Zuleido Veras envolve órgãos federais dos Ministérios do Planejamento, Fazenda, Minas e Energia, Cida-des,Transportes e Inte-gração Nacional. Já estão relacionadas obras superfaturadas pela construtora em diversos Estados: R$ 200 milhões, em Sergipe; R$ 180 milhões, no Rio; R$ 70 milhões, no Piauí. Embora nem todas as verbas tenham sido liberadas, isso não é problema para a Gautama. Somente em emendas parlamentares, senadores e deputados chegaram a destinar mais de R$ 124 milhões do Orçamento da União para obras con tratadas pela Gautama. Juntando tudo é tanto dinheiro que a empresa fraudulenta, segundo as investigações, chegou a remeter R$ 14 milhões para suas contas em paraíso fiscal nas Bahamas. Ultimamente, conforme revelam as gravações telefônicas em poder da Polícia Federal, os negociadores e intermediários políticos da Gautama já estavam tentando incluir em seus contratos empreendimentos do Programa de Aceleração do Cresci-mento(PAC), com investimentos previstos de R$ 503 bilhões até 2010. Pelas investigações, são alvos da Gautama projetos do PAC em Alagoas, Bahia, Amapá, Piauí e Rio de Janeiro, envolvendo obras de infra-estrutura urbana e social com investimentos de mais de R$ 170 bilhões. Além disso, a construtora já está pré-qualificada na licitação para um dos 14 lotes de um dos mais importantes projetos do PAC, a transposição do rio São Francisco, empreendimento que vai custar R$ 6 bilhões. Desse total, a organização criminosa pretende conseguir pelo menos R$ 275 milhões, mas, como conseqüência do escândalo revelado pela Operação Navalha, ela poderá ser impedida de participar da licitação, caso seja isso possível juridicamente como estuda a Corregedoria-Geral da União. Do inquérito de mais de mil páginas da Operação Navalha estão surgindo, a cada dia, novas revelações. Sabe-se agora que a ousadia da empreiteira de Zuleido Veras chegou ao gabinete do presidente Lula. Atendendo políticos de Alagoas, Lula assinou medida provisória destinando R$ 70 milhões para obras do sistema de abastecimento dágua de Maceió sob a responsabilidade da Gautama. Irritado com seu nome envolvido no escândalo, o presidente do Senado, Renan Calheiros, explica que a pressão para liberação desses recursos foi feita em conjunto pela bancada alagoana no Congresso. Para afastar suspeitas, Renan Calheiros garante seu apoio à criação da CPI da Gautama. Mas, como o escândalo compromete gente de quase todos os partidos, ainda há muita resistência à iniciativa. Governistas e oposicionistas argumentam que é melhor deixar as investigações, como estão, com a Polícia Federal. Entre os governistas, o temor maior é o de que a navalha corte outras cabeças, além do já degolado ministro Silas Rondeau. E tudo isso acontece diante de uma Nação perplexa com a credibilidade do Governo, Legislativo e Judiciário em seu nível mais baixo da história.
Governistas e oposicionistas no Congresso ainda resistem à criação da CPI da Gautama porque o escândalo de desvio de verbas para obras públicas atinge políticos de praticamente todos os partidos.

Walter Gomes Musa Antônio Caraballo Magno Martins JB Serra e Gurgel Guillermo Piernes Renato Riella
Jota Alcides Charlotte Aldo Paes Barreto Sérgio Oliveira Luiz Roberto Marinho Kleber Sampaio Aldemar Paiva