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FATORAMA
Jornal das Vozes Livres de Brasília
HOME   Brasília - DF 25/11/2007

PRIMEIRO ROUND
s franceses são um povo teimoso. Nos séculos passados, era uma revolução atrás da outra, um golpe de Estado atrás do outro. O país foi um dos primeiros a adotar o chamado sufrágio universal, numa clara tentativa dos grupos dominantes de fazer com que a massa desistisse dessa idéia de pegar em armas para mudar as coisas e se contentasse com um periódico e tranqüilo depósito de voto na urna. Funcionou mais ou menos. Em 1968, assim, quase que como do nada, faltou pouco para mais uma revolução ser feita pelas mãos de estudantes rebelados. Poucos anos atrás, a luta política ganhou contornos globalizados, quando as mobilizações explodiram, literalmente, dos bairros de imigrantes árabes pobres. No final do governo de Jacques Chirac, mais uma vez uma seqüência de manifestações gigantescas por parte dos estudantes derrubou o projeto do governo que precarizava ainda mais as relações de trabalho. Agora, é a vez dos servidores públicos. O país está parado. Calcula-se que por volta de 80% do transporte francês esteja interrompido. Os sindicatos estão na rua, e o presidente Nicolas Sarkozy, bom de briga, mede forças ao reafirmar diariamente que não desistirá da idéia de aumentar o tempo de contribuição necessário para aposentadoria de alguns grupos de funcionários públicos.





A efervescência política da França contrasta com a apatia e o desinteresse político que assola a esmagadora maioria das democracias contemporâneas. Por aqui mesmo, o ministro da previdência social, Luiz Marinho, saiu do Fórum Nacional da Previdência Social falando abertamente que o governo planejava,

em breve, fazer mais ou menos a mesma coisa que agora tenta fazer Sarkozy. A Central Única dos Trabalhadores e a Força Sindical, integrantes do fórum, calaram-se. Dóceis, afinal, indiretamente integram o governo também. É interessante notar que, em todo o mundo, a falência e o descrédito das instituições representativas desencadeou dois processos simultâneos. A recusa da política, como um todo, e o fortalecimento de alternativas autoritárias. Na França, o segundo processo até que se fez aparecer, tendo em vista que uma figura como Le Pen foi capaz de chegar ao segundo turno em outras eleições e de influenciar decisivamente o debate nas últimas. Mas dar as costas para a luta política, isso os franceses parecem não fazer, ao menos não da maneira como outros países fazem. De forma mais intensa ainda, a participação política não está contida numa cabine de votação. Está viva, ganhando as ruas de Paris e outras belas cidades francesas. Fiquemos de olho nesse primeiro round entre Sarkozy e os sindicatos. A França tem história e sempre ensinou ao mundo. Novamente, talvez aprendamos algo.

*Estudante de Ciência Política na UnB e de Jornalismo no UniCeub.

 

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