Lula X Collor


Depois de quase 18 anos de uma agressiva luta eleitoral, Lula e Collor tiveram essa semana o primeiro reencontro durante audiência no Palácio do Planalto marcada por afagos.
INIMIGOS DO PASSADO AGORA ALIADOS

Elegantes, cavalheiros, gentis, sorridentes e até afáveis um com o outro. Comportaram-se, assim, o presidente Lula da Silva e o ex-presidente Fernando Collor, nessa semana, no Palácio do Planalto, no primeiro encontro dos dois(fotos) quase 18 anos depois de agressivo duelo no segundo turno da eleição presidencial de 1989. Lula deu um cordial abraço em Collor e abriu a conversa com amenidades, rompendo qualquer possibilidade de constrangimento, durante audiência que reuniu a bancada do PTB no Senado. Mais maduros, experientes e calejados, os dois inimigos do passado agora são aliados em defesa de projetos de desenvolvimento para o Brasil.

Até os mais flexíveis e civilizados petistas jamais imaginaram Lula recebendo Collor, ou Collor visitando Lula, no Palácio do Planalto. Quanto aos mais radicais do PT, isso seria inaceitável. Mas, como está no ensinamento de Ovídio, antigo poeta latino, autor de Metamorfoses, o tempo passa, devorando as coisas, sobretudo ressentimentos. Lula, durante quase todo o seu primeiro mandato, esteve freqüentemente ameaçado de impeachment e sofrendo as conse-qüências desastrosas do envolvimento do seu partido em graves escândalos de corrupção, principalmente na compra de votos no Congresso para aprovação de projetos do Governo. Severamente criticado e atacado, Lula acabou absolvido por 56 milhões de brasileiros que o reelegeram, democraticamente. Nada ficou provado contra ele, que sempre negou qualquer participação nas falcatruas do PT. Collor, eleito Presidente em 1989, como “caçador de marajás”, nem chegou a completar seu mandato. Acusado pela CPI de PC Farias de ter recebido R$ 6,5 milhões de um esquema de corrupção, sofreu im-peachment em dezembro de 1992. Condenado pelo Congresso, foi absolvido pelo Supremo e conseguiu em 2006 se eleger senador por Alagoas. Lula e Collor apanharam muito da opinião pública e apreenderam com o tempo. Estão transformados e melhores. Somente as duras lições do tempo para justificar a dimensão dessa mudança. Durante o reencontro dessa semana, os dois fizeram questão de não tocar no passado. Clima de amenidades e trivialidades representou um imenso contraste em relação ao enfrentamento agressivo que tiveram em 14 de dezembro de 1989, em debate na Rede Globo. Da mesma campanha eleitoral, muitos petistas ainda guardam indignação pela polêmica denúncia de Collor acusando Lula de ter pedido à antiga namorada, Miriam Cordeiro, para fazer um aborto. Na mesma intensidade, foi a revanche dos petistas com seus ataques sem limites contra Collor, liderando as investigações que acabaram no impea-chment. Mudaram os tempos e os dois mudaram. Apesar das graves acusações do passado de um contra o outro, parecem sem mágoas. Sinais desse novo sentimento já haviam sido dados pelos dois. Em plena campanha eleitoral de 2006, Collor anunciou, publicamente, seu apoio à reeleição de Lula e Lula, publicamente, agradeceu “de bom grado”. Em sua posse como senador, Collor garantiu: “Ajuda drei a dar sustentação ao Governo Lula, que tem exercido bem seu papel e merece a colaboração de todos”. Ao sair do reencontro com Lula, no Palácio do Planalto, de onde foi praticamente expulso há quase 15 anos, Collor explicou a mudança: “Quem está na vida pública sabe diferenciar muito bem o que são passagens no calor e no fragor de uma campanha eleitoral e o que são passagens de um tempo normal”. Diante dessa metamorfose política, o ex-Presidente, mais novo integrante da bancada do PTB no Senado, agora é aliado do Presidente. “O que estou fazendo não é tentar reescrever a história, mas interpretar a história, os fatos da história”. Como Collor mesmo gostava de lembrar quando Presidente, em suas camisetas de corrida, “o tempo é o senhor da razão”. Mais do que isso, é uma grande escola de vida.
Em clima de absoluta descontração entre os dois inimigos do passado, Lula recebeu Collor com gentilezas e cordialidades, deixando emocionado Collor que saiu fazendo elogios a Lula.

Walter Gomes Musa Antônio Caraballo Magno Martins JB Serra e Gurgel Guillermo Piernes Renato Riella
Jota Alcides Charlotte Aldo Paes Barreto Sérgio Oliveira Luiz Roberto Marinho Kleber Sampaio Aldemar Paiva