Henrique Meirelles


De um pacote de quase R$ 400 bilhões contra a crise, R$ 110 bilhões estão colocados pelo Governo à disposição dos bancos para financiamentos mas eles estão tirando o couro da população
BANCOS ESTÃO ASSALTANDO CLIENTES
Quase R$ 400 bilhões. Este é o valor do pacote desembrulhado pelo Governo Lula, até essa semana, para o Brasil enfrentar a atual crise financeira global. Desse total, R$ 106 bilhões já foram usados somente nas operações para conter alta do dólar, segundo o presidente do Banco Central, ministro Henrique Meirelles(foto). Mais de R$ 110 bilhões estão destinados aos bancos para restabelecimento do crédito aos consumidores, mas os bancos estão se aproveitando dos cofres do Governo e da crise: primeiro, estão segurando esse dinheiro e fazendo reservas; e segundo, mais grave, estão cobrando juros verdadeiramente escorchantes e assaltantes.

Diante da cruel verdade de que a crise não é uma marolinha, como andou avaliando precipitadamente o presidente Lula, mas um aterrorizante tsunami, impondo recessão às maiores economias do mundo - Estados Unidos, Europa e Japão -, o Governo resolveu agir e está agindo com um pacote de medidas financeiras liberando, em poucos dias, R$ 375 bilhões para operações de câmbio, financiamentos de automóveis, imóveis, material de construção, eletrodomésticos e crédito consignado. Do total de R$ 110 bilhões, R$ 56 bilhões fazem parte dos depósitos compulsórios dos bancos em poder do Banco Central e repassados aos bancos a juro zero para serem transformados em crédito aos consumidores. Objetivo: manter o mercado de consumo aquecido, evitar forte desaceleração econômica no Brasil, preservar a produção industrial e abortar ondas de demissões em massa. Embora o presidente do Banco Central esteja confiante de que os bancos farão, gradualmente, a liberação desse dinheiro em crédito para a população, o que está acontecendo é um verdadeiro absurdo. Classificados entre os mais lucrativos do mundo, em ranking internacional divulgado nessa semana, os bancos brasileiros, sólidos, de cofres cheios, sem problemas, e agora abarrotados de dinheiro pelo Governo, sem a menor necessidade, estão aproveitando a crise e tirando o couro da população com juros estratosféricos: crédito pessoal acima de 100% ao ano, cheque especial acima de 180% ao ano, empréstimos para empresas acima de 75% ao ano, algo inaceitável num ambiente de inflação baixa e sob controle. Paradoxalmente, os bancos brasileiros estão na maior fartura de dinheiro em caixa a juro zero, que receberam para aliviar o peso da crise sobre a população, mas o que fazem, incrivelmente, é massacrar a população com prazos curtos de financiamento e os juros mais altos do mundo. Agem assim, inclusive o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, instituições do Governo, que deveriam dar exemplo de sensibilidade social, mas também seguem a lógica de mercado e deixam revoltados os que deles precisam. Estão até seqüestrando bens de inadimplentes. Em resumo: se os bancos brasileiros já ganhavam demais sem crise, agora na crise deverão ganhar muito mais. Mesmo assim, o ministro Henrique Meirelles acredita que os bancos chegarão a um ponto de racionalidade. Depois de afirmar que faz parte da responsabilidade do Governo o provimento de recursos para instituições financeiras a fim de reduzir os efeitos da crise sobre o País, ele garante: “Vamos fazer o possível para que a crise não seja maior do que o necessário”. E conclui, realista mas otimista: “O Brasil vai ter uma desace-leração no crescimento do crédito no ano que vem e, em conseqüência, na atividade econômica geral, mas menor do que em outros países”. Que assim seja, apesar de toda a crise de confiança que abala o mercado. Mas, será que os bancos brasileiros precisam agir como estão agindo, sem qualquer punição? Agora, além de ter que evitar bandos armados dia e noite, a população indefesa diante da crise financeira global, tem que se proteger também de bancos com juros es-corchantes ou assaltantes. Além de grave, é imoral a crise.
Bancos brasileiros, entre os mais lucrativos do mundo conforme ranking internacional divulgado nessa semana, estão aproveitando a crise e massacrando a população com juros escorchantes ou assaltantes

Expediente Musa Antônio Caraballo Magno Martins JB Serra e Gurgel Raphael Bruno Renato Riella
Jota Alcides Charlotte Aldo Paes Barreto Sérgio Oliveira Luiz Roberto Marinho Kleber Sampaio Aldemar Paiva