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Jornal das Vozes Livres de Brasília
HOME   Brasília - DF 21/10/2007

CASTELO DE CARTAS
uase um ano após o início do seu segundo mandato, o Governo Lula, que outrora emergia como uma ampla hegemonia quase incontestável, no frescor do impulso de legitimidade dada pelas urnas, no estabelecimento de uma diversificada e totalizante base de apoio e no envolvimento simbólico com um projeto de crescimento para o País, começa a dar seus primeiros sinais de cansaço. E não me baseio aqui na ligeira oscilação negativa de sua avaliação, revelada pela sondagem da CNT/Sensus. Não. As pequenas fraturas que tencionam o castelo lulista têm base política concreta, e não ficarão debaixo do tapete por muito tempo. Elas têm origem nas contradições do próprio governo, que tenta abrigar debaixo de suas asas interesses e atores conflitantes. O castelo do rei é de cartas. E daquelas de papel barato. O rolo compressor que se desenhava no Congresso Nacional encontra seus limites. De um lado, a base de apoio partidário mostra sua verdadeira face. Bem distante da fantasiosa “aliança programática” que prega o Presidente, alguns partidos já mostraram que sem a devida alimentação da máquina de cargos e liberação de emendas, resta pouco ao Governo. Pior para Magabeira Unger e sua secretaria de planejamento de longo prazo. Pior para todos nós. Por outro, o caso Renan despertou a energia da oposição. Por mais que Lula e o





ministro Mantega esperneiem, a CPMF só passa no Senado com concessões. Fora dos corredores oficiais, os setores organizados historicamente vinculados ao grupo político de Lula ganham cada vez mais uma dinâmica de contestação das velhas estruturas. É difícil mantê-los dóceis, apesar de todos os mecanismos

de cooptação, quando seus interesses são atacados, ou no mínimo ignorados. Durante todo o ano, sindicatos e mais sindicatos romperam com a Central Única dos Trabalhadores. E as invasões de reitorias pelas Universidades Federais de todo o Brasil continuam. Trazem muitas vezes plataformas abertamente contrárias à medidas do Governo e a sua pretensa reforma universitária. Elas não têm o dedo da UNE, comandada pelo sempre fiel PCdoB. Se manifestam contra, e sobretudo apesar da entidade. Por quanto tempo a sustentação política heterogênea de Lula persistirá é difícil precisar. O Presidente segue a cartilha dos poderosos, principalmente do capital financeiro. Mas a impaciência desses grupos pode crescer caso uma agenda mais acentuada não evolua. E ela não encontrará espaços sem que se produzam ainda mais rupturas com setores que insistem com o governo na outra ponta. O conflito, seja nas entranhas do Governo ou vindo de fora e contra ele, não pode ser atenuado para sempre. Em 2010, o Governo pode estar em frangalhos. A salvação do grupo pode responder pelo nome de Ciro Gomes. Mas talvez, diferentemente do que tanto deseja, Lula, a exemplo de FHC, seja orientado a não se aproximar muito do palanque.

*Estudante de Ciência Política na UnB e de Jornalismo no UniCeub.

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