u confesso:
eu estava lá ! Estava no Cine Paulista, na rua Augusta, quando Bill Haley
e seus Cometas apresentaram, pela primeira vez no Brasil, o rock around
the clock, see you later alligator e outros monstros pré-históricos. Terminado
o filme, os rapazes mais irados da minha geração depredaram o cinema em
homenagem ao rock que chegava. Bill Haley era muito gordo e muito velho
para um roqueiro. E o que é gravíssimo, era um careca precoce. Para disfarçar
usava um ridículo pega-rapaz enroladinho na testa. Há 50 anos todos nós
éramos ridículos. Borges, o argentino, escreveu uma História |
das Civilizações nos 38 versos do seu poema “As causas”. Começa no crepúsculo
dos primeiros dias, sendo que nenhum foi o primeiro. Passa pela lua dos
Caldeus, por César em Farsália. Relaciona as criações essenciais, a álgebra,
o espelho, a bússola. Se tivesse escrito algum tempo depois, com certeza
colocaria entre “As causas” a cena do primeiro disc-jockey colocando na
vitrola o primeiro rock. Essa cena aconteceu. Foi em Cleveland. O mundo
nunca mais foi igual. Esse DJ tem um nome. Chamava-se Alan Freed. Há 50
anos Alan Freed pôs na vitrola o primeiro rock. O mundo nunca |
mais foi igual. O
sonho adquiriu cores que os meninos não suspeitavam. Nunca fui um roqueiro,
nem apaixonado pelo rock. Mas Elvis , já inchado pela bebida ou pela cortisona
simplesmente, me hipnotizava. Não era pelo
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fraseado de “Love Me Tender”, ou pelo movimento do corpo que ele me hipnotizava.
Era simplesmente porque ele era “o cara”. Ele fez musicais melosos e nos
filmes namorava as moças mais chatas da América. Fez o circuito completo,
da glória à quase degradação. Nos últimos anos, doente, assustado (ou talvez
apenas sábio) refugiou-se no seu casarão em Memphis. Até que um dia, há
30 anos, o DJ de plantão em Memphis, naquela madrugada, interrompeu a programação
habitual e anunciou com a voz embargada : “Ladies and gentleman, the king
is dead. Elvis Aron Presley |
died fifteen minutes ago...”. Era mentira, claro. Elvis não morreu coisa
nenhuma. Dizem que vive em Buenos Aires. Pode ser. Não faz muito tempo,
em Paris, eu cruzei com ele no metrô. Quando o trem saiu eu pude ver Elvis,
nítido, na outra plataforma. Estava todo de branco, bem magro, como no tempo
em que namorava as meninas mais chatas da América, o topete inconfundível.
Fiz um aceno, dei um tchauzinho. Da outra plataforma, Elvis, com as mãos
nos bolsos, cumprimentou-me com um leve movimento da cabeça. |