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é possível imaginar um futuro sem democracia no Brasil. Não
é possível imaginar uma democracia sem o Congresso. Mas não
se enganem: o Congresso não dura para sempre se não tiver legitimidade
diante da opinião pública; se não for capaz de virar o centro
das aspirações, dos desejos, da pauta do povo; se não for feito
a cada quatro anos – e, repetidamente, a cada quatro anos –
por pessoas com credibilidade, que sejam capazes de atrair a
juventude para continuar essa tarefa tão dura que é ser parlamentar.
Por isso, sou um defensor do Congresso, sou um defensor do Parlamento
dividido em duas Casas. Dediquei metade da minha vida a lutar
para que houvesse um Congresso aberto, nove anos dos quais no
exterior, forçado por um semiexílio, lutando para abrir o Congresso.
E, a outra metade, já com o Congresso aberto, lutando para abrir
as cabeças das pessoas através da educação. Eu sou um democrata,
não preciso passar atestado disso. Agora, nós precisamos despertar
e abrir as nossas cabeças, dos parlamentares, no sentido de
que estamos nos distanciando das aspirações, dos sonhos, |
do amor do povo. E, se esse distanciamento for além de um certo
ponto, haverá uma ruptura. Não precisa ser profeta para prever,
basta ler um pou-quinho de História. Leiam um pouquinho de História
e vocês vão ver que, no momento em que há uma ruptura entre
o povo e o Congresso, o povo sobrevive; o Congresso, não. Se
continuar esse divórcio– que há, sim, não pensem que não há
esse divórcio, é triste que haja, lamento que haja, mas há um
divórcio – entre nós e o povo – e não pensem que a culpa é de
um, dois ou três daqui, não, é de todos nós, e eu me incluo
entre eles – se isso continuar, haverá uma ruptura. Como vai
ser? A História nunca se repete. Certamente, porque não se repete,
não será por tanques de guerra. Pode ser o povo na rua. Há formas
diversas. E eu disse que, se continuar assim, não vai faltar
alguém – não disse que eu o faria – que proponha um plebiscito
ao povo brasileiro para decidir: queremos uma democracia com
três Poderes ou apenas com dois Poderes, como, aliás, é mais
ou menos como é hoje, porque hoje há dois Poderes fortes: o
Executivo, com suas medidas provisórias; e o Judiciário, com
suas medidas judiciais; e um |
Cristovam Buarque*
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"O Brasil espera de nós mais do
que estancar escândalos.
Quer que demonstremos nosso poder de mudar o país”
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Poder menor,
que somos nós.O fato de eu ter dito isso gerou uma grande conturbação,
e eu não vou negar que eu tenho duas alegrias com isso: a primeira
é que todo político gosta, obviamente, de provocar conturbações,
isso é natural em qualquer político; a segunda, que me deixa
feliz, é que recebi uma quantidade imensa de e-mails – e, depois
de meses, meses e meses de críticas ao Congresso, eu recebi
uma porção de e-mails defendendo o Congresso. E isso me deixou
muito |
feliz. É a primeira vez que eu recebo críticas durís-simas a
mim com um riso no rosto e com alegria no coração, porque foram
críticas pela suspeita de que, por trás disso, estaria algo
absolutamente absurdo com a minha biografia de acreditar numa
democracia sem Congresso. Se fosse algum tempo atrás, ao propor
abrir o Congresso, iria preso; quando a democracia chegar, se
propor fechar o Congresso, será ignorado – não será preso. A
gente está no meio termo: não prende e não ignora. Isso significa
que não estamos plenamente cumprindo a função que a gente precisa.
Quero dizer que, querendo ou não, por acaso ou não, surgiu um
processo de debates com uma gravidade maior do que a do dia
a dia. Acho que se está precisando que outros Senadores façam
provocações; que essas provocações nos despertem, provoquem,
deem uma balançada, como ouvi um jovem dizendo que o que eu
fiz foi dar uma balançada. Não tenho mérito, porque não o fiz
de maneira deliberada. Não foi algo consciente, premeditado,
não foi estratégia. Mas eu quero dizer que há uma coisa que
poucos estão percebendo e que eu acho que é o mais |
grave: está se imaginando que, se se fizer um plebiscito, o
povo vai votar pelo fechamento. Essa é a idéia que passa quando
se tem medo do plebiscito, quando, em condições normais, a gente
sabe que, se houvesse uma sintonia a gente nem deveria ter medo
disso, porque 99,9% do povo iria dizer: queremos o Congresso
aberto – como disseram durante 21 anos da ditadura. O povo foi
para rua e brigou querendo isso. Hoje, nós estamos tão incomodados
que a gente pensa que é possível que a votação seja contra o
Congresso. Poucos estão pensando o porquê disso. Eu acho importante
a gente pensar que há uma defensiva tão grande nossa que alguns
começam achar que um plebiscito poderia dar negativo. Eu acho
que, apesar de todos os erros, o plebiscito daria altamente
positivo para o Senado. Mesmo assim, eu não defendo que haja
plebiscito. Mesmo assim, não vejo necessidade de plebiscito.
Eu vejo, sim, necessidade de uma reflexão profunda sobre o nosso
papel no Brasil de hoje, nas condições do mundo de hoje.
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Cristovam Buarque, senador
pelo PDT do Distrito Federal.
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