PRISIONEIROS DO BOLSA-FAMÍLIA
A notícia de que os domicílios beneficiados com o dinheiro de programas sociais no Brasil se multiplicaram entre 2004 e 2006, conforme li na imprensa recentemente, não me surpreendeu. Os dados foram divulgados pelo IBGE e mostra que o País tem se preocupado apenas com a dívida financeira, externa e interna, em detrimento do compromisso social com os brasileiros. A cada ano, em vez de o Bolsa-Família reduzir o número de beneficiados, por exemplo, as pessoas ficam mais dependentes do auxílio, o que ficou evidente nos dados atuais. O problema é que o Bolsa-Família não tem o foco na educação. E a educação das crianças é o único caminho para a emancipação dessas famílias, mas o programa deixou de ter esse impacto. Se a bolsa garante a manutenção da família, a escola garante a independência de seus filhos. Há uma grande diferença entre receber o benefício porque o filho vai à escola e receber simplesmente porque é pobre, como ocorre agora. O Bolsa-Família deve exigir dos pais a garantia de freqüência escolar dos filhos com mais rigor. Senão, a escola vira um lugar que serve comida: um restaurante popular mirim. O que mantém os beneficiários presos ao programa é a falta de perspectiva, dada pela falta de formação e qualificação. Não estamos fazendo a mudança no lugar certo, onde é preciso. Por que não fazemos com as políticas sociais o que foi feito com a política econômica? Entre outros pontos, a mudança de


Cristovam
Buarque*



"O problema é que o Bolsa-Família não tem o foco na educação. E a educação das crianças é o único caminho para a emancipação dessas famílias”
enfoque da escola para a família foi um passo atrás. Ao retirarmos a palavra escola da Bolsa e adicionarmos família, saímos da idéia de educar para a de assistir, de efeito momentaneo e limitado. Em 2000, depois de outras cidades e países terem adotado a Bolsa-Escola, o presidente Fernando Henrique implantou-a no Brasil. Mas pagava pouco, e não fez as mudanças necessárias na educação básica. Em 2004, o governo Lula piorou o programa, transformando-o em Bolsa Família. Trocou o nome Escola por Família, apontando a transformação de um programa educacional em assistencial. Passou a gerência do programa do Ministério da Educação para o da Assistência Social. Além disso, juntou ao programa ações puramente assistenciais. Mesmo tendo mantido na lei a necessidade da freqüência às aulas para os filhos dos beneficiados, pôs fim à centralidade do aspecto educacional, tornando impossível vincular bolsa e escola, já que não é essa a finalidade do Ministério executor. Pior, não é fácil exigir de uma família com filhos o que não se exige de uma família necessitada, mas sem filhos em idade escolar.O programa se descaracterizou. Todos sabem que não serão penalizados, se os filhos estiverem fora da escola. O que o Governo fez foi sair do futuro, ficar preso ao presente e deixar de construir uma nova geração para ganhar a próxima eleição.
* Cristovam Buarque é professor da UNB e senador(PDT-DF)

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