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Jornal das Vozes Livres de Brasília
HOME   Brasília - DF 09/09/2007

MANCHA DE SANGUE
divulgação, nessa semana, de relatório do conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Aderson Bussin-ger, apontando que a missão da Organização das Nações Unidas no Haiti, liderada pelo Brasil, é “uma força de ocupação, e não humanitária, que está validando os abusos de direitos humanos no país caribenho e contribuindo para um estado de permanente repressão”, contribuiu para manchar com sangue a política externa do Governo Lula. Em visita ao país, o conselheiro da OAB constatou que as tropas brasileiras não realizam, virtualmente, nenhum trabalho voluntário no miserável território haitiano, e que a presença do Exército brasileiro serve apenas para reprimir violentamente as populações de bairros mais pobres. Agressões, espancamentos, desaparecimentos e casos de brutalidade policial são relatados cotidianamente. Um estado de terror, digno das mais cruéis ditaduras que assolaram a América Latina poucas décadas atrás. O papel vergonhoso desempenhado pelo Brasil faz parte de uma estratégia duplamente equivocada por parte do Governo. Primeiro, é uma tentativa de galgar maior representatividade no cenário internacional visando à conquistar espaços de poder dentro das diversas organizações multilaterais internacionais vinculadas à ONU. Para tanto, a pedido de Washington, o Brasil aceita exercer papel secundário na política de intervenção





norte-americana sob o disfarce de que ela seria “humanitária”. Diante desse contexto, pouco valeu o posicionamento contrário à guerra no Iraque. A mando dos Estados Unidos, temos nosso próprio Iraque, guar-dadas, é claro, as devidas proporções de força militar de ambos os países. O fracasso dessa estratégia é evidenciado a partir da

constatação de que continua a ser o Tio Sam o principal responsável por muitas das obstruções que o Brasil encontra nas suas investidas por posições mais consolidadas dentro da institucionalidade que orbita a ONU, a despeito do alinhamento brasileiro. O segundo equívoco é ainda mais preocupante, para não dizer assustador. Como fontes do governo continuamente deixam escapar, o Haiti está ser-vindo como “treinamento” para militares brasileiros. Também em visita ao país, o ministro da Defesa Nelson Jobim classificou a aventura haitiana como uma experiência de “segurança pública”, e que, como tal, poderia ser utilizada futuramente em localidades como a periferia do Rio de Janeiro. Ou seja, as forças militares brasileiras estão numa espécie de laboratório de repressão aos miseráveis, e num momento posterior a elas será dada a chance de mostrar se fizeram a lição de casa. Desta forma, alimentada pelo crescente medo dos grupos médios e altos brasileiros da violência que não mais se restringe aos morros, muito embora tal violência seja financiada por estes mesmos grupos, a concepção restrita de que o braço do Estado que deve subir a favela é a polícia ganha força. Eu disse polícia? Desculpe. É a vez de o Exército brincar de violação dos direitos humanos.

*Estudante de Ciência Política na UnB e de Jornalismo no UniCeub.

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