VIVAS AO BARÃO DO CAPIBARIBE!
Festiva alvorada de gorjeios em Aldeia, bairro ecológico do Recife, onde os pássaros ainda gorjeiam como antigamente; caminhada por trilhas de pequena floresta atlântica ainda preservada; refrescante banho de bica em fonte que jorra desde Gênesis; passeio nas areias da linda Boa Viagem, Copa-cabana do Nordeste; e maratona gastroetílica, com celebração até o sol de novo raiar. É assim que o Barão do Capibaribe, indissoluvelmente associado ao cão sem plumas de Cabral Neto, vai comemorar, neste final de semana, o seu septuagésimo ano de existência e resistência. Feliz, mas pensativo nesse estágio da condição humana: mais moço, podia tudo mas não sabia nada; agora, velho, sabe tudo mas não pode nada. É uma tragédia. Foi-se o tempo das noites de boemia no Bar Savoy, mas não se foram os, de Carlos Pena, “trinta homens sentados, trezentos desejos presos e 30 mil sonhos frustrados”. Estão distantes as noites alegres na Torre de Londres do Jardim 13 de Maio, no Dom Pedro da rua do Imperador, nos bares do Pátio de São Pedro ou na animada pensão de Dona Alzira no velho porto do Recife. Parecia juventude eterna, como a flor de todos os tempos, de Manuel Bandeira, que não morre nunca. Mas eterna é somente a história do coração humano. Preferia continuar sexagenário, segundo ele a mais sexy das idades, até nas bodas: Diamante, Sândalo, Ébano... Mas como não pode com uma peneira o sol tapar, o jeito é se esbaldar. Confortado pela promessa de que ainda tem de dez anos para virar octogenário. É melhor aproveitar ser velho, antes de ser ancião. Ou como ensina Cícero, orador latino: é melhor ser velho por muito tempo. Até pensou, o Barão do Capibaribe, numa missa na Catedral de Madre Deus. Mas, com quem? Com tanta descrença generalizada, depois que um pastor passou a pregar que “templo é dinheiro”, quase ninguém sabe mais onde ficam as igrejas. E o Padre só estaria presente, como prometeu, com dois ou mais em oração. Essa idéia de igreja não é porque, pelo avanço da idade, tenha medo da morte, repentina e silenciosa, levando os amigos. Não. Seu maior medo da morte é não poder mais escrever ou não poder mais contar uma piada. Seja como for, para não passar vergonha, desistiu da conversa dos frades. Mas não resistiu à pressão dos confrades. Afinal, sob as magníficas velhas pontes do Recife, corre há séculos o Capibaribe levando lágrimas de muitos sonhos, angústias, desejos, alegrias e esperanças para o gigantesco e profundissimo oceano dos mistérios da vida. Depois, agora longe da flor da idade, acredita que cada idade tem suas flores, seus sabores, seus gostos e seus prazeres. Né não, Boileau? E, ainda, não esquece o alerta de Voltaire: quem não tem o espírito de sua ídade, de sua idade tem o infortúnio. Por isso, o Barão do Capibaribe


Jota Alcides*

bateu o martelo: vai ter confraternização, bebericação e celebração em Boa Viagem. É onde ele resiste bravamente, ao lado de sua baronesa, Mary. Com ela, esposa amorosa e companheira inseparável de lutas e encrencas, na tristeza e na alegria, sua vida não tem monotonia. É verdade! Guerreiro, sabe que é chegada a hora de pegar a cartola de mágico e sacudir a arvore das amizades. Cairão as podres, as podres cairão. Faz parte do seu filosofar, do seu viver, do seu exercício critico fulminante. Tão fulminante que faz imaginar ter sido essa razão de Deus ter criado o mundo sem consultar um critico. Do Barão do Capibaribe, certamente teria ouvido: “Faça isso não, homem de Deus”. Pode até perder um amigo poderoso, como o Todo-Poderoso,mas jamais perder a piada. Assim é o Barão no seu cotidiano: renovando as amizades, elevando os amigos e praticando seu esporte preferido: abater, sem indulgência, os mensaleiros e ladrões da República. Politicamente, o Barão do Capibaribe é como Rui Barbosa. Odeia combinações hipócritas de absolutismo dissimulado em formas de assistencialismo
democrático. Discípulo de Juvenal, poeta latino, transforma sua indignação em sátiras de combate aos poderosos de plantão. Detesta a enganação de uma mísera bolsa para famílias miseráveis enquanto somente alguns, sempre os mesmos, recebem sacolas e cuecas cheias de dólares. Olha criticamente para o governo de desmandos gerais e mais ainda para os desmandos gerais do governo. Por isso, ciceramente, já mandou insistentes recados, para o Olimpo: Quousque tandem, Ignacius, abutere patientia nostra? Recado inútil. O homem pensa que Latim é coisa de cachorro. Antigamente, o Barão do Capibaribe pensava que não se devia deixar para o dia seguinte o que se podia fazer no dia anterior, mas hoje, com o mundo de cabeça para baixo e principalmente aquela cabeça de baixo, ele pensa exatamente o contrário: é preciso adiar tudo para o dia seguinte. O Barão é seletivo, como La Fontaine: mais vale um sábio inimigo do que um amigo ignorante. Descendente do Marques do Recife, revolucionário de 1817, rico senhor de engenhos, dos mais ricos e prestigiados de Per-nambuco, orgulha-se dessa nobreza que tanto inspirou os tratados de sociologia de Gilberto Freyre e tanto fez fama na Olinda olindíssima de Marcos Vilaça. Mas lastima que dela, nobreza, não tenha recebido nada. É que a parentada antecedente comeu tudo, todo o mel e os próprios engenhos. Restou-lhe apenas duas coisas, honestidade e dignidade, que hoje, na Bolsa de Valores, éticos e morais, não valem mais nada. Que o digam Marco Maciel, Jarbas Vasconcelos e Cristovam Buarque, três políticos pernambucanos de apenas quatro quehonram o Brasil. Mas o Barão não se entrega.É um homem de batalhas. Seja de Itararé e seja do que houver. Feito Anatole France, julga que a historia da vida não é uma ciência, mas uma arte onde somente se alcança êxito pela imaginaçao. Daí, sua arma poderosa é o inteligente e fino humor, o mais brilhante na história da imprensa do Nordeste. Se do Sul fosse, seria o melhor do Brasil.Vejam só: “Nessa história do trem-bala entre Rio e São Paulo, o Rio já entra com 50% de vantagem – só falta o trem”. Com estilo, linguagem, humor, sagacidade e personalidade, escreve seu tratado moral. Combatente cívico que orgulha Pernambuco, diria-lhe Joaquim Nabuco: ferramenta não é nada, talento é tudo. Como assim é privilegiado, carrega pedras de filosofia até quando descansa em seu recanto ecológico de Aldeia, onde não faltam os poéticos cajueiros de Mauro Mota, ou no Forte Essinger, nas encostas de Maria Farinha. Mas, como todo mortal, o Barão também não é de ferro. Merece as Bodas de Vinho. Parabéns, Aldo Paes Barreto! Vida longa, Barão do Capibaribe! Até às Bodas de Jequitibá!
* Jota Alcides é Jornalista e diretor executivo do Jornal Fatorama

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