IMPUNIDADE E CORRUPÇÃO
stão vasculhando a minha vida, investigando as minhas prestações de contas à Justiça Eleitoral e à Receita Federal. Não tenho o que esconder, pois disputei em Pernambuco algumas das eleições mais acirradas da história do Estado. Não temo esses investigadores, apesar de considerá-los credenciados para tal função, pois de crimes eles entendem. Eles não me amedrontam. Fui eleito Senador da República para exercer uma função política e não policial ou investigatória. O meu objetivo primordial, ao denunciar a corrupção generalizada, foi atingido ao fazer com que uma parte expressiva da sociedade brasileira prestasse mais atenção no que ocorre no nosso País. Um quadro aterrador que até agora vinha sendo encoberto pelos bons resultados da economia. É extremamente necessário que algo seja feito, antes que essa degradação comprometa a nossa democracia, levando as novas gerações a um quadro de desalento para com o exercício da política. Os recentes acontecimentos no Fundo Real Grandeza, o fundo de pensão dos funcionários de Furnas e da Eletronuclear, são uma prova clara e inequívoca do que explicitei. Repito: não preciso citar nomes, pois eles vêm à tona, infelizmente, quase que diariamente. O exercício da política não pode ser transformado em um balcão de negócios. O que se vê hoje no nosso País é um sentimento de descrença, com a impunidade corroendo as bases da democracia. O poder pelo poder leva ao quadro político degenerado que hoje vivemos no nosso País, no qual a esperteza é mais valorizada do que a inteligência e a correção ética. O caminho para resolver as pendências da nossa democracia está em pauta há anos. Refiro-me à Reforma Política - não a esse arremedo de reforma que chegou recentemente ao Congresso Nacional, a qual, segundo afirmam, será “fatiada”. Uma reforma política séria deve, em minha opinião, incluir e aprovar pelo menos quatro pontos: 1 – Financiamento público de campanha; 2 – Fidelidade partidária; 3 – Fim das coligações em eleições proporcionais e 4 – Implantação da cláusula de desempenho. O financiamento público de campanha é indispensável para evitar a interferência cada vez maior do poder econômico, que corrompe o processo eleitoral. Hoje isso representaria um


Jarbas Vasconcelos*


"Impunidade é a conseqüência mais nefasta do quadro de degradação dos nossos compromissos políticos sociais e éticos. É cancro que precisa ser extirpado”


custo de aproximadamente R$ 914 milhões para uma eleição nacional, tomando como referência um eleitorado de 130,6 milhões de pessoas. De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral, a campanha eleitoral do ano passado custou cerca de R$ 2,43 bilhões. A imprensa, por sua vez, calcula que a despesa real representou até cinco vezes esse valor, chegando à cifra de R$ 12,15 bilhões – mais de 12 vezes o valor estabelecido no projeto
da reforma política! Não sou ingênuo de acreditar que o financiamento público sozinho vá resolver o problema da corrupção e do desvio de recursos públicos para as campanhas eleitorais. Isoladamente, nenhuma dessas propostas dará resultados amplos. Por essa razão, questiono a chamada “reforma fatiada”. A fidelidade partidária, por sua vez, é um instrumento para impedir o degradante festival de adesões fisiológicas. De todas as medidas de uma reforma política séria e objetiva, talvez a única que obteria um resultado extraordinário isoladamente é a proibição das coligações nas eleições proporcionais. Apresentarei um Projeto de Lei que proíbe que as diretorias financeiras de empresas estatais possam ser ocupadas por indicações partidárias. Minha proposta reservará esta posição com exclusividade para funcionários de carreira dessas empresas e autar-quias. A classe política – se tivesse bom senso – deveria ficar a quilômetros de distância de qualquer diretoria financeira. Considero a impunidade a conseqüência mais nefasta do quadro de degradação da política e dos nossos compromissos políticos, sociais e éticos. É um cancro que precisa ser extirpado. No Brasil dos dias atuais, a certeza da impunidade dá uma força muito grande a quem não agiu com lisura e correção. As pessoas se agarram aos cargos como mariscos no casco de um navio – não caem nem nas maiores tempestades. A corrupção é um fator de desagregação política e social. Por isso, gostaria de apresentar mais duas propostas que julgo serem de grande importância, apesar de não serem originais: Primeira – A criação de uma agência anticorrupção, Segunda – A retomada do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral, Finalmente, um elogio à CNBB, que, entre os temas da Campanha da Fraternidade deste ano, defende denunciar os crimes contra a ética, a economia popular e as gestões públicas, e a imunidade parlamentar para crimes comuns. É essa a postura que se espera da sociedade civil, das igrejas, das entidades de classe e da imprensa. A mudança de postura que se faz necessária no Congresso Nacional só virá pela pressão de todos.
* Jarbas Vasconcelos, senador pelo PMDB de Pernambuco

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