INJUSTIÇA NA DITADURA E NA DEMOCRACIA
Pela primeira vez em 46 anos, acordo pontualmente às 6 da manhã e a Tribuna da Imprensa não está debaixo da porta. Não posso deixar de voltar no tempo, de 1956 a 1962, quando comecei a fazer coluna e artigo no grande e importante Diário de Notícias, jornal que João Dantas transformou num baluarte da Liberdade, da livre expressão, da verdadeira democracia. João Dantas costumava me dizer: “Hélio, gosto de ler você pela manhã, quando muita gente poderosa já está me telefonando para comentar ou reclamar sobre o que você escreveu. Mas você não sairá do jornal por pressão de ninguém”. Cumpriu integralmente até o momento em que deixei o Diário de Notícias para assumir esta Tribuna da Imprensa. Um era vespertino, o outro matutino. Depois, a diferença desapareceu, matutinos e vespertinos passaram a sair juntos, por causa do engarrafamento do trânsito. Os matutinos saíam à meia-noite, os vespertinos ao meio-dia. Com a cidade crescendo desordenadamente, abandonada, praticando uma espécie de alpinismo, mas sem o menor controle, orienta ção ou fiscalização, chegamos ao caos absoluto de Cesar Maia, ainda interino por mais 1 mês. Não podendo distribuir um jornal ao meio-dia numa cidade dominada pela balbúrdia, matutinos e vespertinos se fundiram, passaram a sair juntos. À meia-noite. Só que os vespertinos não saíam aos domingos, os matutinos não circulavam às segundas-feiras. Carlos Lacerda, genial nos apartes, nos apelidos e nos rótulos que colocava nas pessoas, já brigado com Golbery que era chefe do SNI, publicou a seguinte frase-comentário, que levou ao desespero, o tenente-coronel que passou para a reserva como general: “Golbery, chefe do SNI, no fim de semana é completamente desinformado pois os jornais não circulam”. Bestial, pá. Disse que durante 46 anos, pontualmente ia apanhar a Tribuna da Imprensa debaixo da porta, mas temos que fazer as ressalvas indispensáveis. A partir de 1966, quando a ditadura começou verdadeiramente, até 1968 quando ela se consolidou no autoritarismo, na violência, na crueldade, como ditadura mesmo, durante vários meses, debaixo da porta, (e muitas vezes por uma frente


Hélio Fernandes*



"Nas dezenas de prisões, onde estive, não encontrei a Tribuna da Imprensa em lugar algum. Os militares ficavam com todos os exemplares”


estreitíssima) o que eu via, apenas: as botas dos seguranças, que vigiavam a minha falta de liberdade. (Muita gente pode não entender quando eu digo que a ditadura “começou em 1966” e pode perguntar: “E em 1964, o que aconteceu?” Foi apenas um ensaio da ditadura. Como quase todos conspiravam insensatamente, pois eram candidatos a presidente em 1965, os militares também
conspiravam, mas não sabiam bem o que acontecia). Quem conspirava em 1963, de manhã até à noite, na mais longa batalha contra a democracia? Pensavam que defendiam a democracia mas estavam contra ela. Pela primeira vez, vou dar os nomes dos que conspiravam contra eles mesmos, pois como disse, candidatos a presidente em 1965, acabaram por tirar 1965 do mapa. Os nomes. João Goulart - Pela segunda vez vice-presidente, no exercício do cargo, não queria eleição. Só atendia conselhos do doutor (doutor mesmo) Roberto Marinho e do embaixador de Harvard, Lincoln Gordon. Ademar de Barros, governador de São Paulo. Magalhães Pinto, governador de Minas. Carlos Lacerda, governador da Guanabara. Leonel Brizola, que deixara o governo do Rio Grande do Sul, em janeiro de 1963. Queria ser presidente mas também conspirava, pois João Goulart não queria que fosse presidente. Lançou então a frase que ficou popularíssima: “Cunhado não é parente, Brizola para presidente”. Juscelino Kubitschek, presidente de 1956 a 1961, não admitiu a reeeleição que lhe ofereciam, se lançou candidato, mas também conspirava. Sorrateiramente, os militares também conspiravam, tomaram o Poder em 1964, mas não sabiam o que fazer com ele. A partir de 1966, com a minha cassação para impedir que fosse o deputado mais votado, partiram para a ditadura de verdade. Repetiram 1889, quando dois marechais “das Alagoas”, ultrapassaram os abolicionistas e os propagandistas da República.
PS - Tenho que ressaltar: nas dezenas de prisões, nos três confinamentos violentos e arbitrários, (sou o único brasileiro seqüestrado e desterrado três vezes) não encontrei a Tribuna da Imprensa em lugar algum. Os militares ficavam com todos os exemplares, eram meus leitores incondicionais.

* Hélio Fernandes, jornalista e presidente da Tribuna da Imprensa

Nota da Redação - Artigo de Hélio Fernandes publicado na versão online da Tribuna da Imprensa, em 03 de dezembro, um dia após o jornal impresso deixar de circular no Rio. Ele promete manter o jornal no formato eletrônico.

Tão Gomes Musa Antônio Caraballo Magno Martins JB Serra e Gurgel Raphael Bruno Renato Riella
Jota Alcides Charlotte Aldo Paes Barreto Sérgio Oliveira Luiz Roberto Marinho Kleber Sampaio Aldemar Paiva