GOLPE DO TERCEIRO MANDATO
Vivemos hoje tempos muito estranhos. Só muita estranheza pode explicar a recente movimentação política em defesa de um terceiro mandato consecutivo para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O mais bizarro de tudo é que essa proposta parta exatamente de integrantes do Poder Legislativo. A imprensa divulgou que a sugestão para mais quatro anos para o Presidente Lula partiu do Presidente do Senado Federal e do Presidente da Câmara dos Deputados. Nenhum dos dois negou a informação. Outro aspecto importante a relembrar é que durante a eleição para a Presidência do Senado Federal usaram o “fantasma” do terceiro mandato contra a candidatura do Senador Tião Viana. Afirmavam que a vitória de Tião Viana representaria o retorno da proposta. Agora o tema volta à baila, mas justamente com o PMDB presidindo as duas Casas. Os motivos que movem os que defendem essa iniciativa, para mim, são muito claros e vão na direção do que venho afirmando reiteradamente. Esses senhores, defendem, antes de qualquer coisa, seus próprios interesses, não pensam no Brasil, pensam em se perpetuar no poder, usufruir eternamente de todas as benesses que isso possa significar. Antes de me aprofundar nesse assunto quero deixar bem clara a minha posição: sou contra o terceiro mandato, seja para o Presidente Lula, seja para qualquer outro Presidente da República. E por que toda essa movimentação, já que esse assunto tinha sido superado em meados do ano passado? Aí é que começa o sentido mórbido e desrespeitoso dessa história. O “bode” foi colocado na sala, como se diz lá no Nordeste, por causa do estado de saúde da ministra Dilma Rousseff, que é apresentada pelo próprio Presidente da República como candidata governista à sucessão do próximo ano. Diante das dúvidas sobre as condições reais da ministra Dilma, a chamada base governista se apressou em retomar a bandeira golpista de um terceiro mandato. O mais chocante, de tudo isso é que a ressurreição do terceiro mandato chega na hora em que o Congresso Nacional enfrenta a maior crise de credibilidade da sua história. E tudo isso ocorre apenas poucos meses depois que o próprio Congresso Nacional comemorou os


Jarbas Vasconcelos*


"Um terceiro mandato consecutivo para Lula significa um golpe devastador em todas as conquistas democráticas dos últimos anos”

vinte anos da promulgação da Constituição Cidadã. Essa iniciativa de permitir a disputa de um terceiro mandato consecutivo significa um golpe devastador em todas as conquistas democráticas dos últimos anos. A quem pode interessar a aprovação de uma medida dessas com o Legislativo destroçado? É o maior sinal de submissão de um Poder da República que
presenciei nos últimos quarenta anos, só comparável às demonstrações de subserviência dos Presidentes da Câmara e do Senado durante a ditadura. Se a causa for a popularidade do Presidente da República, é melhor implantar o parlamentarismo. Num sistema parlamentarista, o Chefe de Governo permanece na função enquanto goza de respaldo político, mas essa lógica também funciona num caminho contrário, e o governo cai quando perde o respaldo popular. Alguém defendeu essa segunda hipótese por ocasião do desgaste causado pelo escândalo do “Mensalão” há quatro anos? Claro que não. Vivemos no sistema presidencialista com o direito assegurado de o chefe do Poder Executivo disputar uma reeleição consecutiva. É o suficiente. Alterar isso é querer transformar o Brasil numa “república de bananas”. Por isso me soa absurda essa história de que a popularidade presidencial é pré-requisito para aprovar um terceiro mandato. Afirma Norberto Bobbio: “A soberania popular não pode se basear na mera autoridade do número, pois a maioria é tão arbitrária quanto o arbítrio individual. A soberania não pode ser senão a soberania do Direito, de uma ordem jurídica racionalmente organizada”. Vamos trabalhar sob hipóteses, para se ter uma dimensão do que estão propondo para o País. Imaginem que o Congresso Nacional - contra o meu voto - aprove o instituto do terceiro mandato. O Presidente Lula mantém seus índices de aprovação e se reelege pela segunda vez em 2010. Quatro anos depois, se repetiriam as condições atuais, e consequentemente o Congresso seria levado a aprovar um quarto mandato. Não estou sendo sarcástico nem irônico, mas quem defende três mandatos consecutivos deve referendar o quarto, sem objeções de ordem ética. Diante dessa perspectiva continuísta, talvez fosse mais racional restabelecer a Monarquia no Brasil, coroando o nosso atual Presidente da República como “Lula 1º”. O mais triste é que esse episódio mostra que o Presidente da Venezuela, Coronel Hugo Chávez, está fazendo escola na América Latina, onde ocorrem tentativas reiteradas em diversos países para quebrar as regras constitucionais e permitir a perpetuação no poder.
* Jarbas Vasconcelos, senador pelo PMDB de Pernambuco

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