| Nunca
fui governista, nunca apoiei governo por apoiar. Na minha vida,
eu tive muito mais momentos de oposição do que de governo. Mas
tomei uma lição que não vou esquecer nunca: a melhor circunstância,
a circunstância que vale a pena, não é a circunstância do preconceito
nem a do prejulgamento, muito menos a da omissão. O que vale
a pena é assumir posições, defendê-las e sustentá-las, enfrentar
o combate, travá-lo com coragem e determinação até que o resultado
se confirme. Nada de omitir o direito para o combate, o direito
para discussão. É claro que há muita injustiça, muitas afirmações
que não se comprovam, que se desenvolvem muitos ataques especulativos.
Isso tudo é verdade, mas para que essa democracia, na qual vivemos,
valha a pena para quem tem confiança no que faz, o importante
é que a discussão seja aberta, que não se use a aritmética,
que não use o direito simples da maioria. A maioria é conjuntural;
a Justiça não. Fundamentos democráticos são muito mais importantes
do que afirmações precárias de maiorias eventuais que muitas
vezes escondem objetivos que não são democráticos. Essas lições,
a história já nos deu dezenas de vezes, |
para trás, de forma dramática, aqui no Brasil também e fora
dele. Eu não sou contra os chamados grupos de pressão, contanto
que a pressão se dê pelas ideias e não pela agressão; contanto
que o combate se dê pela discussão e não pela ameaça. Grupos
que trabalham assim não são democráticos, não merecem estar
sentados no Parlamento e manter os seus mandatos de Senadores.
Os que trabalham assim deviam se apresentar assim à opinião
pública. E é do ponto de vista do povo que me preocupa, neste
instante, a questão do Senado. Um Senado com 70%, 80% de julgamento
abaixo da crítica; dá para conviver com isso? Senadores que
não andam nas ruas porque são mal vistos; dá para conviver com
isso? Um julgamento geral de que todos estamos, de alguma maneira,
comprometidos com muitas coisas que não são verdadeiras, mas
que outras são verdadeiras, com responsabilidades de um tamanho
ou de outro, mas gerais; nada disso. O nosso grau de comprometimento
não é igual. Uns são mais, outros são menos comprometidos. Uns
sempre mandaram no Senado, outros nunca mandaram. Não foi fácil
para mim pedir ao Presidente José Sarney que se afastasse por
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Sérgio Guerra*
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"Não dá para este Senado funcionar assim. Infelizmente,
as medidas que estão sendo tomadas agora deveriam ter
sido tomadas há muito tempo”
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sessenta
dias. Talvez eu tenha sido dos últimos a apoiar essa idéia.
Não dá para este Senado funcionar assim. Infelizmente, as medidas
que estão sendo tomadas agora deveriam ter sido tomadas há muito
tempo. É claro que o Presidente José Sarney sofre um ataque
muitas vezes injusto. Mas é claro que esse ataque não foi tratado
de forma democrática no Senado. É questão pública e nós temos
de esclarecê-la. Se vamos cassar alguém? É claro que não. Se
vamos |
discutir esses fatos? É claro que sim. Se os fatos são fracos,
eles vão ceder; se não se sustentam, se não têm conteúdo, eles
não agüentam. Se eles têm realidade, verdade, eles vão surgir
e vão se consolidar. Essa é a lição da democracia, dos Parlamentos.
Não há outra. E eu tenho pelo Presidente José Sarney muita estima,
sincera. Esse negócio de falar e não pensar não é da minha natureza.
Agora, o Presidente José Sarney tem uma biografia. Dirigiu uma
transição dramática; foi o Presidente da República; fez tentativas
relevantes de mudança econômica; tentou ajudar as regiões, entre
elas, a minha, o Nordeste; sempre foi cordial, sempre foi absolutamente
civilizado, tem espírito público, tem respeito pela cultura
do seu País, ele próprio contribui com ela. Mas estamos destruindo
a imagem do Presidente José Sarney e estamos nos destruindo
também. Nós estamos nos afundando progressivamente em um prodígio
de insensibilidade. Fala-se em tropa de choque. Não tenho nada
de pessoal contra os que estão citados – até alguns são meus
amigos – mas não pode haver tropa de choque. Choque de quê?
São pontapés? Ameaças? Não vale. Idéia sim! Vamos discutir idéias. |
Há uma grande confusão instalada. Um democrata, como José Sarney,
discursa para reclamar de um jornal. Pode até ter razão, mas
as questões que foram publicadas naquele jornal, ou em qualquer
jornal sobre as quais a opinião pública tem ponto de vista,
devem ser esclarecidas no Congresso por todos nós, e especialmente
pelo Presidente do Senado, que é o Presidente de todos nós e
que, quando eleito, teve o compromisso de todos nós de colaborar
com ele. E que tem condições reais, potenciais, históricas para
presidir o Senado do Brasil, como já o fez de forma qualificada.
Então, nós não podemos continuar nesse jogo de precariedades,
de limitações, de improvisações que agride as pessoas, que ameaça
as pessoas e que não serve para nada, não constrói coisa nenhuma.
O que constrói as coisas é respeito pelos outros, respeito pelo
ponto de vista dos outros, é entender que pode e deve haver
discordâncias e caminhar com elas, é exercer a maioria quando
for o caso de exercê-la. Esmagar, nunca; trucidar jamais; fazer
barulho por fazer barulho, também não. Precisamos honrar o ponto
de vista do povo.
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Sérgio Guerra e senador(PE),
presidente nacional do PSDB
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