este
ano, o Brasil completou 24 anos da redemocratização. Tempo suficientemente
longo para que comecemos a nos esquecer de como foi a ditadura.
Porém, tempo insuficiente para consolidarmos a democracia. Já
não há mais medo da ditadura, mas ainda não existe confiança
na democracia. O poder ditatorial se mantém por meio de armas
nas mãos dos ditadores; o poder democrático, pela credibilidade
dos parlamentares junto ao olhar público. E pela capacidade
de se reciclar, atraindo os melhores quadros para a vida pública.
A atual crise de confiança que atravessa o Senado Federal está
provocando dois fenômenos que ameaçam a democracia: a descrença
da opinião pública e a perda do entusiasmo dos jovens pela vida
pública. As pesquisas mostram um Senado com baixíssima credibilidade,
e quem anda entre jovens percebe que não há renovação da vocação
política. A juventude despreza os políticos e a política. Pior,
a sensação |
é de que os jovens que desejam seguir a carreira política estão
mais interessados nos benefícios e vantagens do que em servir
ao País. Por isso, nós que fazemos parte do Parlamento de hoje,
nós que somos o centro dos escândalos, temos de pensar não só
na honra pessoal ameaçada, mas na nossa responsabilidade com
a consolidação da democracia. Temos idade para nos lembrar dos
males da ditadura, e obrigação de sentí-la ameaçada. Por isso,
precisamos reagir. Primeiro, precisamos entender nossa culpa
e responsabilidade. Mesmo que a imprensa possa exagerar, a notícia
é sempre despertada, nunca inventada. Ela é o alarme de que
precisamos para corrigir erros que às vezes não vemos em nós
ou ao nosso redor. Por isso, a primeira ação deve ser garantir
transparência em todos os atos, gestos e gastos. Não se comete
crime e pecado do lado de lá de um vidro limpo, sob o olhar
do público. Crimes e pecados são cometidos entre paredes |
Cristovam Buarque*
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"O Brasil espera de nós mais do
que estancar escândalos.
Quer que demonstremos nosso poder de mudar o país”
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fechadas,
por trás de cortinas grossas. O Senado precisa assumir a transparência,
tornar tudo público, como deve ser em uma instituição de eleitos
pelo povo. A segunda ação é aumentar nossa produtividade. Oque
mais deve incomodar a opinião pública é o fato de não ver, ao
lado das notícias de escândalos, o resultado |
concreto do nosso trabalho para melhorar o dia-a-dia do povo
brasileiro. Somos um poder irrelevante diante das medidas provisórias
e das decisões judiciais, espremidos entre o Executivo e o Judiciário.
Por nossa ausência, Executivo e Judiciário se assenhorearam
do poder de toda a República. Já que nossa Casa não aparenta
produção concreta, além de discursos, salvo uma ou outra lei
de interesse público, o povo nos vê apenas como despesa. Devemos
recuperar o poder que temos a obrigação de ter, revertendo as
leis que dão mais poder ao Executivo, definindo as regras de
como o Judiciário deve legislar. Na democracia, a Casa do Povo
é o Congresso, ou não há democracia. Para isso, precisamos de
uma terceira ação: temos de mudar radicalmente nosso comportamento.
É impossível ter poder parlamentar quando se fica apenas dois
dias por semana no Congresso, não mais que poucas horas no Plenário,
raríssimas vezes em sessões plenárias, e |
nunca em sessões nas quais dialoguemos, discutamos, parlamentemos.
O maior de todos os escândalos é o fato de que, no Brasil de
hoje, nós, parlamentares, não parlamentamos. A quarta ação é
renovar o compromisso com a agenda do povo. Mesmo nossos discursos
são raramente centrados nos problemas reais da Nação brasileira,
no futuro do Brasil. Gastamos muito tempo debatendo generalidades,
enquanto o Brasil enfrenta uma crise estrutural e outra conjuntural,
e precisa enfrentar as duas. O Brasil espera de nós mais do
que estancar escândalos. Quer que demonstremos nosso poder de
mudar o País, fazendo um Congresso que orgulhe a todos os brasileiros,
que faça as mudanças que o Brasil espera há séculos, e sobretudo
que justifique e consolide a democracia, atraindo os jovens
para a vida pública em vez de afastá-los, como hoje acontece.
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Cristovam Buarque, senador
pelo PDT do Distrito Federal.
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