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ingredientes rocambolescos que fermentam o retorno de Manuel
Zelaya a Honduras serviriam de roteiro para um filme de enredo
e personagens de qualidade bastante duvidosa. A propósito, já
foi dito que a região da América Central e Caribe sempre foi
mais conhecida pela luminosidade de suas praias do que pelas
suas idéias. O mais inusitado nesse episódio que ganhou as manchetes
dos grandes veículos de comunicação no mundo inteiro e motivou
reuniões de emergência e debates acalorados na OEA e na ONU
foi, sem dúvida, a participação do governo brasileiro. A nossa
tradição diplomática de mediação e eqüidistância dos conflitos
externos foi rompida pelo presidente Lula sem a menor cerimônia,
numa sequência de gestos e atitudes no mínimo contraditórias.
A decisão de acolher o presidente deposto na embaixada do Brasil
na capital hondurenha, numa operação clandestina de retorno
ao país, |
certamente será objeto de análise no futuro de muitos estudiosos
da respeitada diplomacia brasileira. A “porta larga” que se
abriu num passe de mágica para Zelaya vai obrigar o Itamaraty,
numa próxima gestão, a um profundo reexame de sua atuação, longe
do engajamento partidário de uma política externa ditada por
preferências e visões pessoais. Conforme destaquei na presença
do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, em audiência
na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado,
inúmeros especialistas em direito internacional e constitucional
questionam a forma como o Brasil vem conduzindo a questão da
permanência de Manuel Zelaya na embaixada brasileira em Tegucigalpa.
Não é crível que o governo brasileiro tenha sido consultado
sobre a possibilidade de ceder uma aeronave da Força Aérea Brasileira
para transportar o presidente “deposto” e tenha simplesmente
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Alvaro Dias*
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"O Governo Lula permitiu que a sede de nossa representação
diplomática em Honduras fosse transformada num misto
de cortiço e comitê político”
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deixado
de monitorar o desenrolar dos fatos que resultaram na chegada
triunfal à Calle República Del Brasil, nº 2301. Sem definir
o status do “hóspede”, enveredando por contorcionismos retóricos
para fugir à responsabilidade e em |
flagrante afronta ao direito internacional, o governo do presidente
Lula permitiu que a sede de nossa representação diplomática
em Honduras fosse transformada num misto de cortiço e comitê
político, de onde emanavam diretrizes para incitar a população
local. Nesse contexto, ficou insustentável o Brasil defender
para si o papel de mediador do conflito, agravado ainda pelas
críticas do presidente Lula dirigidas ao presidente em exercício
de Honduras, Roberto Micheletti, classificando-o de “golpista”.
Nas últimas horas foi amplamente noticiado um estudo da lavra
do advogado paulista Lionel Zaclis que esmiúça todo o processo
de deposição do presidente hondurenho. Ao longo de exaustiva
análise, o mencionado especialista, com base na Carta Magna
daquele país, conclui de forma irrefutável que não houve golpe
de Estado. A tentativa de Zelaya de permanecer no poder, conforme
demonstra |
Lionel Zactis, feriu cláusula pétrea da Constituição de Hondu-ras
e ensejou medidas judiciais perfeitamente cabíveis. A ótica
bolivariana do coronel Hugo Chávez foi rechaçada naquela república
de tradição caudilhista. A cada momento se consolida a falta
de unanimidade na sucessão de questionamentos sobre a ação do
Brasil em Honduras. O alinhamento automático à Zelaya colocou
por terra a postura pragmática e de equilíbrio da diplomacia
de Rio Branco, marca de uma política externa reconhecida nos
quatros cantos do planeta. O “morador” do nº 2301 da Calle República
Del Brasil não é bom inquilino, muito menos uma boa companhia.
É chegada a hora de selecionarmos melhor nossos parceiros e
definir em novas bases uma política externa sem viés ideológico
e partidário.
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Alvaro Dias é senador
e primeiro vice-líder do PSDB
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